__ Como assim: “Sou jurado de morte na favela de Paraisópolis!”
Essa era a nossa estagiária (aquele doce de menina que estava nos acompanhando durante algumas madrugadas em busca de experiência) perguntando, com a mais meiga das caras de espanto, ao reporter sobre sua mais recente revelação.
O detalhe é que estávamos bem no meio da referida favela onde ele era jurado, sozinhos! Eu, o reporter e ela, uma estagiária interessada no trabalho de campo, esperando sua chance ao sol (ou à lua, como era nosso caso).
Como resposta o reporter apenas ria, ele era assim, maluco! Não sei o que corria em suas veias, mas acredito que corria nas minhas, pois, quando me dei conta, estava rindo também.
__ Se segurem!
Esse era eu. Um motorista/assistente/cinegrafista com uma leve tendência a destruir viaturas.
No momento me preparava para cruzar com a de número 511 por dentro de um córrego de esgoto no fim de uma viela escura. Voltar de ré por aquela rua, teoricamente sem saída, é que eu não ia!
Cada um de meus passageiros esboçava uma reação diferente:
__ Não passa não velhinho! Velhinho! Caralho!!!
Esse era o repórter. A estagiária era mais cristã:
__ Aí meu Deus! Aí meu Deeeeeeeeeeeeeeus!
Quando perceberam, já estávamos do outro lado. Eu e o repórter continuávamos rindo. A garota, atracada com um braço em cada encosto dos bancos dianteiros, espaço reservado aos curiosos, nem tanto.
Pode parecer loucura, com certeza a nossa ilustre convidada achou isso, pois nunca mais saiu conosco, mas não é. O repórter entendia isso. Trabalhávamos há algum tempo juntos, nos conhecíamos bem e pensávamos de forma muito parecida.
Quando entramos naquela viela, pedimos indicação de caminho até o incêndio que procurávamos (essa era nossa matéria, por isso estávamos ali) à três homens que mexiam em um carro, atitude por si só muito suspeita ás duas da manhã, eles haviam nos orientado para que fossemos até o final daquela passagem, dessa forma chegaríamos ao nosso destino.
O fato é que não havia incêndio nenhum lá, só um beco sem saída. Seria esse nosso destino?
Não naquele dia!
Pode até ser que aqueles homens tivessem se enganado e não pretendessem nos fazer mal algum. Mas na minha experiência, ninguém manda outra pessoa até um lugar ermo como aquele a tôa.
Se a estagiária tivesse percebido do que havia escapado, com certeza estaria rindo também! Ou não!
Isso aconteceu a cerca de um ano e meio, a estagiária agora é produtora e o ciclo continua!
Mais recentemente outro estagiário saiu conosco, riu de mim quando eu disse que não gravaria vinte vezes a mesma passagem com ele até que acertasse o texto.
__ Vinte vezes também não né?
Foi sua resposta arrogante.
Acho interessante o jeito como os estagiários acham que sabem de tudo! O fato é que ao fim de uma matéria o repórter permitiu que ele segurasse o microfone durante a coletiva com o oficial de polícia, fiz questão de colocar sua mão trêmula em quadro, parecia que segurava um chocalho ao lado dos cubos das outras emissoras.
Ao fim da entrevista ele explicou- se dizendo que estava muito frio, contraditoriamente ao "frio" que ele sentia seu rosto estava vermelho, quase suado. Foi minha vez de rir e dizer!
__ Ainda acha que vinte vezes são poucas!?
Dessa vez ele ficou quieto, mas isso é bom! Para um reporter é mais importante ouvir do que falar, com certeza aquele estagiário aprendeu uma lição e será um bom jornalista, mas na hora certa.
Esse é o ciclo!
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
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