domingo, 23 de agosto de 2009

Coragem

Uma das atitudes mais corajosas que já ví.
Um soldado dar voz de prisão para seu superior, um sargento da polícia militar.
Os policiais, que eram parceiros, recuperaram um veículo roubado. Antes de leva- lo para a delegacia da área, o sargento tentou roubar o aparelho de som do carro, sendo impedido pelo soldado.
O sargento sentiu- se indignado.
"Sou seu superior!"
Dizia ao soldado.
Mas ele não se intimidou, acionou o comando, que naquela noite estava ao encargo de um tenente, e fez com que o sargento fosse preso.
Penso na força de caráter desse soldado, que fez uma das coisas mais difíceis em qualquer profissão que é romper com o corporativismo.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Nem Tudo que Reluz é Ouro!

Vivemos numa época onde certos valores parecem estar distorcidos, como se as pessoas não conseguissem mais diferenciar nitidamente o certo do errado, o bem do mal, numa espécie de miopia social!
O errado se tornou tão banal que muitas vezes o incorporamos em nossa rotina como se fosse algo normal.
Durante algum tempo mantive dois empregos. Esse, que mantenho até hoje como repórter cinematográfico na madrugada paulista, e outro como cinegrafista e iluminador nos estúdios de certa denominação religiosa.
Na madrugada se vê coisas terríveis, como pais que matam as três filhos, os esquartejam e jogam seus restos no lixo. Ou um homem religioso e trabalhador que um dia, sem qualquer explicação, surta e mata a mulher e os filhos a marteladas, deixando, antes de ser morto pela polícia, um rastro de 1 Km de carros destruídos.
São histórias que marcam em nossa memória, e que chocam quem as ouve.
Um dia, após ouví- las, uma repórter da Igreja onde trabalhava me perguntou como eu conseguia trabalhar na madrugada com jornalismo polícial, se não me sentia mal fazendo aquilo.
Minha resposta foi tão espontânea que até eu fiquei surpreso com ela:

__ Pelo contrário. Sinto- me mal fazendo o que faço aquí!

A repórter calou- se!
Eu também!
Cada um seguiu seu rumo. Mas enquanto arrumava a iluminação de um dos estúdios, tentava entender por quê havia dito aquilo! Por quê me sentia daquele modo!?
Encontrei minha resposta na história do soldado nazista, que é julgado após a guerra pela execução de vários judeus, mas afirma não ter nada contra esse povo:

__ Só seguí as ordens superiores!

Mas isso o isenta de sua responsabilidade? Ele não deveria diferenciar sozinho o certo do errado?
Um soldado nazista! Era assim que me sentia trabalhando para aquela igreja que não pregava amor ao próximo, mas sim prosperidade financeira!
Apesar de seus discursos embasados na bíblia, não tinham interesse real de que o mal se extinguisse, assim como um vendedor de lenços não quer que as pessoas parem de chorar.
Claro que conhecí pessoas íntegras nos círculos mais altos dessa denominação religiosa, mas infelizmente eram minoria.
Jung diz em um de seus textos a seguinte frase:

"Quem olha para fora, sonha! Quem olha para dentro, desperta!"

Eu despertei, me demitindo daquele trabalho nos estúdios da Igreja.
A madrugada pode ter casos de pura maldade, mas ela está nítida! É facil de não se deixar envolver, de manter distância.
Já, em outros lugares, o mal é tão sutil que, quando nos damos conta, estamos completamente envolvidos, como muitos soldados nazistas!

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Curiosidades Sobre Algumas Delegacias

Abra o guia de ruas da cidade de São Paulo e procure por delegacias de polícia.
Você encontrará uma lista que se inicia no 1° Dp da Sé e termina no 103° Dp da Cohab II em Itaquera.
Mas não existem 103 distritos policiais na capital, essa lista pula 10 números, sendo eles:

1 - 60°
2 - 61°
3 - 71°
4 - 76°
5 - 79°
6 - 82°
7 - 84°
8 - 86°
9 - 88°
10 - 94°

Essas são as delegacias que não existem, elas foram distribuídas no plano diretor da cidade mas nunca chegaram a ser construídas, por isso os pulos de numeração (devo admitir que se tornou um prazer pedir para os prestativos estagiários, que começam no jornalismo sempre pelo setor de escuta, que levantem informações de algum caso grande num dos 10 distritos fantasmas.)
Por falar em fantasma, o 1° Dp Sé, na rua da Glória, é um antigo casarão em estilo néo- clássico que, segundo alguns policiais, seria mal- assombrado! Se por espectros ou por funcionários fantasmas, isso já não sei!
O 9° Dp, no bairro do Carandirú, ficou conhecido como delegacia modelo, após passar por reforma ganhou esculturas e outras decorações em seu interior, ficou tão bonito esse Dp que por um tempo seus delegados se recusaram a atender qualquer ocorrência. Ou seja, era bonito de se ver, mas horrível de se usar!
No 13° Dp, Casa Verde, a Dra. Elizabeth Sato promove todos os anos um café da manhã para imprensa. Além disso esse dp também serve de carceragem para presos com ensino superior e já recebeu hóspedes ilustres, como Oscar Marone e Alexandre Nardoni.
25°, 54° e 68° Esses três você não precisa fazer questão de conhecer, são os mais distantes dentre os 93 existentes. Respectivamente são: Parelheiros, Cidade Tiradentes e Lageado.
Há também três delegacias, próximas uma da outra, que formam o chamado "Triângulo das Bermudas" pelo apelido acredito que dê para fazer idéia do porquê. Esses três distritos são: 37° Dp, Campo Limpo, 47° Dp, Capão Redondo, e 100° Dp, Jardim Herculano.
O 77° Dp, em Santa Cecília, é uma delegacia de transito de prisioneiros. Muitos dos detidos em outras delegacias são enviados para lá antes de seguirem para algum centro de detenção. O 89° Dp, Portal do Morumbí, tem a mesma função, mas para as mulheres presas.
Essas são só curiosidades sobre alguns distritos policiais, coisas que vão tornando fácil gravar seus números e regiões a que pertencem.
Atualmente conheço todos, pois tenho uma história em cada um deles, mas isso... É assunto para outras postagens!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Coisa de Maluco!

O mundo é um lugar maluco! A madrugada ainda mais!
Certas coisas é melhor nem tentar entender, como ladrões que tentam invadir um banco com uma escavadeira roubada, sendo que bastaria um martelo para quebrar o vidro da agência.
Dá para entender?

domingo, 9 de agosto de 2009

Faixa de Gaza

Qualquer dia desses, quando você estiver de bobeira pela madrugada da capital, passe no bar Estadão para um lanche. É bem provável que veja por lá algumas equipes de reportagem.
O Estadão se tornou ao longo dos anos uma espécie de posto avançado para as equipes da madrugada, foram vários os motivos que contribuiram para isso.
O bar fica situado num ponto privilegiado, sobre o viaduto Nove de Julho, exatamente no centro da cidade, dando fácil acesso a qualquer região pelas interligações leste / oeste e norte / sul caso alguma ocorrência seja ventilada na rede.
Os preços dos pratos não são nenhum absurdo, sendo muito bem preparados.
E, principalmente, porque é lá que todos na madrugada param quando tem um tempo livre, não apenas repórteres, mas também bombeiros, policiais civis, militares, agentes de trânsito, motoristas de ambulância, de rabecão, de táxi, prostitutas, ladrões... Que lugar seria melhor para se conseguir informações frescas sobre a cidade!?
Claro que se deve tomar muito cuidado nessa "faixa de gaza", prestar muita atenção ao que se fala e faz para não arrumar nenhuma confusão nesse ambiente instável.
No Estadão recomendo sentar próximo ao velho Zuza, caixa que há mais de trinta anos trabalha por alí no mesmo horário.
Sempre fui um bom ouvinte. Um ladrão de histórias, como todo escritor, e tornou-se para mim um hobbie ouvir as histórias do Zuza, que passou a me considerar um de seus melhores clientes.
Ele também gosta de ouvir, saber em primeira mão o que acontece por São Paulo, e, com todos, policiais, bombeiros e etc. Inicia a conversa do mesmo modo:
__ Fizeram o que hoje?
A pergunta não é diferente para os jornalistas, que acabam lhe dizendo as matérias feitas no decorrer da noite.
Durante certo tempo, em que uma parte da imprensa estava em verdadeira guerra fria com outra, era o velho Zuza que, como verdadeiro informante, me mantinha a par das atividades jornalísticas de meus colegas, evitando assim que tomássemos furos grandes de reportagem.
Ouvir mais do que falar, esse é o segredo do Bar Estadão. Isso, e é claro, o tempero de seu famoso pernil!

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Antimatéria

Certo jornalista de extenso currículo me disse uma vez que tudo rendia uma matéria, e ilustrava sua afirmação com o exemplo: "Tem equipe de reportagem que vai até o porto para fazer a inauguração de um navio e volta sem nada porque o navio afundou!"
Concordo com seu ponto de vista dentro desta perspectiva, mas ele, em sua vasta experiência, se esqueceu de um outro ângulo, com o qual por vezes me deparo dentro do jornalismo factual, e que gosto de chamar de antimatéria.
O suicídio!
Emissora nenhuma exibe este tipo de caso. Já passei por situações onde, após horas de plantão, a matéria simplesmente caiu quando descobrimos tratar- se de suicídio.
As explicações das redações são várias:

"É depressivo demais!"

Ou então:

"Pode incentivar outros a fazerem o mesmo!"

Há também:

"Não é ético!"

Mas em minha opnião trata- se do reflexo de um fato ocorrido há muitos anos e que foi exibido pelo extinto jornal policial "Aquí e Agora".
Essa passagem ficou conhecida como "Suicídio ao vivo", e mostrava exatamente isso, uma garota se jogando de um prédio ao vivo.
Na época isso foi extremamente repudiado por toda a comunidade jornalística, desde então o suicídio tornou- se um dos dogmas éticos da profissão.
Dias atrás passei por uma situação que considerei semelhante e que fez com que eu me sentisse muito mal, mesmo sem estar envolvido com ela diretamente.
O repórter de uma emissora concorrente (um rapaz novo de profissão e com toda a gana de conquistar seu espaço ao sol) convenceu uma mulher, que estava entre os curiosos que acompanhavam nosso trabalho, a ir até a casa da mãe de um rapaz, morto na chacina que cobríamos, e dar- lhe a notícia da morte do filho.
O repórter com quem eu trabalhava nesse dia insistiu para que fossemos junto.
De imediato avisei que não iria gravar uma situação dessas, consciente, ele concordou, mas pediu que me mantivesse próximo, caso a mulher se interessasse em dar entrevista.
Me mantive na esquina da rua onde morava a mãe do rapaz, acompanhando com o olhar a descida dos dois jornalistas e do cinegrafista da outra emissora, que gravava todo o percurso até a casa.
Mesmo distante, podia ouvir os gritos da mulher quando recebeu a notícia.
Houve um momento de tensão quando, vendo que a mulher passava mal, um dos repórteres começou a gritar para que alguém chamasse uma ambulância.
Não fiquei muito mais tempo do que isso naquela esquina. Voltei para o carro e esperei o meu repórter, que apareceu alguns minutos depois.
No dia seguinte ví a matéria na outra emissora, cujo apresentador do jornal ainda pedia para reprisar o momento em que a mãe era informada da morte do filho.
O resultado não podia ser outro, todos os profissionais de jornal impresso, rádio e televisão do horário ficaram indignados com o apelo imoral daquela matéria e com o repórter que a fechou. Repórter esse que, muito constrangido, dizia que nunca mais faria algo deste tipo. Mas era tarde, já estava feito!
Fico pensando no que poderia ter acontecido caso aquela mãe tivesse infartado naquele fatídico momento, já que os jornalistas haviam perdido sua imparcialidade no momento em que induziram alguém a dar uma notícia que não lhe cabia.
Passaram a fazer parte da informação e não apenas a transmiti- la.
Situação parecida ocorreu no caso Eloá, quando muitos apresentadores de TV passaram a conversar com o sequestrador, função que era da polícia!
Pode até ser que tudo renda uma matéria! Mas não se pode fazer de tudo por uma matéria, pois isso pode implicar em passar por cima de questões éticas e morais que podem destruir uma carreira, e até vidas, como no caso Eloá!