Pimenta no olho do outro é colírio!
Não é com orgulho que admito, mas hoje essa frase foi verdadeira para mim pois o "outro" em questão tratava- se de um criminoso.
Um grupo de bandidos havia roubado um caminhão carregado de camisetas, só que acabaram sendo localizados pela polícia durante o transbordo do produto do roubo atravez do sistema de rastreamento do veículo em uma empresa de logística na zona norte.
Na abordagem varios ladrões fugiram e um deles tentou se esconder dentro de um tambor sem saber que o líquido dentro dele era soda cáustica.
Por sí só isso já não é uma visão bonita! Mas não parou por aí.
Todos nós já ouvímos histórias de policiais que maltratam os criminosos ao prendê- los, mas posso garantir que neste caso não foi a intensão dos PM's, pelo contrário, eles se compadeceram do desespero em que o infeliz, ensopado de soda cáustica, se encontrava e o levaram até o vestiário da empresa para um banho.
"Deixamos que ele passasse uma água no corpo para aliviar um pouco o ardor na pele do indivíduo!"
Foi o que o Tenente me disse ao comentar o caso.
Não disse nada ao oficial, mas acontece que o sódio, presente na composição do produto químico, é extremamente reagente em contato com a água!
Bolhas terríveis eclodiram na pele do bandido que passou por dois hospitais antes de encontrar um capacitado para cuidar de suas queimaduras.
Me lembrei do filme do Batman, onde o coringa cai em solução semelhante. Claro que nosso "amigo" não é nenhum gênio do crime como o personagem interpretado por Jack Nickolson, mas foi um palhaço igual!
Tudo bem! Podem me criticar! Sei que não é certo rir da desgraça alheia, só que tenho visto muitos latrocínios esse ano e quando penso na frieza desses criminosos com suas vítimas, pessoas normais como eu ou vocês, não posso deixar de ouvir aquela vozinha no meu interior dizendo "bem feito!"
Posso estar errado, mas não serei hipócrita de fingir ter ficado com pena do assaltante.
Sou do tipo que acha que direitos humanos devem ser para humanos direitos, e vocês?
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
GOMORRA É AQUI!
ERAM 9 HORAS DA NOITE NO BAIRRO JAQUARIBE EM OSASCO NA GRANDE SÃO PAULO.
JAMES FERREIRA DA SILVA, UM BARMAN DESEMPREGADO, ESTAVA VOLTANDO PARA CASA APÓS UM CULTO RELIGIOSO COM O FILHO DE 1 ANO E 3 MESES EM SEU COLO.
ALGUNS METROS ANTES DE CHEGAR EM SUA RESIDÊNCIA O JOVEM PAI DE APENAS 25 ANOS É ABORDADO POR UM HOMEM ARMADO QUE ANUNCIA O ASSALTO.
ASSUSTADO, JAMES TENTA COMPLETAR CORRENDO OS POUCOS PASSOS QUE FALTAM ATÉ A SEGURANÇA DE SEU LAR.
MAS ELE NÃO CONSEGUE!
FRIAMENTE O ASSALTANTE DISPARA VARIAS VEZES CONTRA SUAS VÍTIMAS.
DOIS TIROS ATINGEM JAMES, UM NA COXA DIREITA E OUTRO NA NUCA, A CRIANÇA EM SEUS BRAÇOS TAMBÉM É FERIDA COM UM TIRO NA CABEÇA.
PAI E FILHO FICAM LÁ, CAÍDOS NA RUA, ENQUANTO O CRIMINOSO FOGE SEM LEVAR NADA, POIS O ÚNICO PERTENCE QUE JAMES CARREGAVA NAQUELA NOITE ERA A BÍBLIA SAGRADA
INTERNADO NO HOSPITAL ANTONIO GIGLIO, JAMES FERREIRA ESTÁ FORA DE PERIGO.
JÁ SEU FILHO PERMANECE EM ESTADO GRAVE NO HOSPITAL REGIONAL DE OSASCO, ONDE A FAMÍLIA, MUITO ABALADA, NÃO TINHA NEM MESMO PALAVRAS PARA UM CRIME TÃO BRUTAL.
MAS QUE PALAVRAS SERIAM NECESSÁRIAS NUMA SITUAÇÃO COMO ESSA?
JAMES FERREIRA DA SILVA, UM BARMAN DESEMPREGADO, ESTAVA VOLTANDO PARA CASA APÓS UM CULTO RELIGIOSO COM O FILHO DE 1 ANO E 3 MESES EM SEU COLO.
ALGUNS METROS ANTES DE CHEGAR EM SUA RESIDÊNCIA O JOVEM PAI DE APENAS 25 ANOS É ABORDADO POR UM HOMEM ARMADO QUE ANUNCIA O ASSALTO.
ASSUSTADO, JAMES TENTA COMPLETAR CORRENDO OS POUCOS PASSOS QUE FALTAM ATÉ A SEGURANÇA DE SEU LAR.
MAS ELE NÃO CONSEGUE!
FRIAMENTE O ASSALTANTE DISPARA VARIAS VEZES CONTRA SUAS VÍTIMAS.
DOIS TIROS ATINGEM JAMES, UM NA COXA DIREITA E OUTRO NA NUCA, A CRIANÇA EM SEUS BRAÇOS TAMBÉM É FERIDA COM UM TIRO NA CABEÇA.
PAI E FILHO FICAM LÁ, CAÍDOS NA RUA, ENQUANTO O CRIMINOSO FOGE SEM LEVAR NADA, POIS O ÚNICO PERTENCE QUE JAMES CARREGAVA NAQUELA NOITE ERA A BÍBLIA SAGRADA
INTERNADO NO HOSPITAL ANTONIO GIGLIO, JAMES FERREIRA ESTÁ FORA DE PERIGO.
JÁ SEU FILHO PERMANECE EM ESTADO GRAVE NO HOSPITAL REGIONAL DE OSASCO, ONDE A FAMÍLIA, MUITO ABALADA, NÃO TINHA NEM MESMO PALAVRAS PARA UM CRIME TÃO BRUTAL.
MAS QUE PALAVRAS SERIAM NECESSÁRIAS NUMA SITUAÇÃO COMO ESSA?
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O Fio da Meada
Baseado numa história real ocorrida durante a madrugada.
O policial em pé a minha frente vai vomitando toda sua ocorrência para mim (Deus! Como odeio esses jargões da PM!) enquanto minha experiente escrivã, senhorita Cinthia, uma solteirona de 50 anos, vai digitando a história.
__ Estavamos em "Patru com vistas" quando "pagou" via "rede- rádio" um "QRU" de latrocínio. Fomos com uma "certa" até o "QTH" e encontramos o dono da residência "zerado" no quarto, aparentemente a pauladas, e sua esposa trancada com o filho no banheiro. Fizemos uma busca no local, mas os "malas" já tinham se evadido!
Eu fico lá... Balançando a cabeça enquanto minha atenção está focada na placa de identificação no peito do Cabo da PM a minha frente. Seu sobrenome é Cetanelle, deve ser de descendência italiana. Mas não foi isso que chamou minha atenção, foi a placa em sí que diz: CABO CETANELLE __ CÁ BOCETA NELLE!
Começo a dar risada e nem o cabo nem a escrivã entendem nada.
__Tudo bem doutor?
Digo que sim e me recomponho. Dispenso o cabo, prefiro pegar os detalhes com a família, então peço para que o policial chame a mulher da vítima... "com uma certa!" Digo irônico ao PM, mas quem entende é a senhorita Cinthia, que desvia a vista para o lado escondendo o sorrindo.
A maioria das pessoas acha que o trabalho de delegado é repleto de aventuras e mistérios como nos filmes. Tolice! Na verdade é um trabalho burocrático, passo a maior parte do tempo sentado nessa mesa, ouvindo pessoas e assinando papéis.
É no depoimento, na história ou nas lacunas dela que pode estar a solução para os casos:
Um apelido dito sem querer por um dos bandidos!
Uma cicatriz ou tatuagem percebidas pelas vítimas!
Alguma informação que os bandidos tinham e que não deveriam ter!
É afinando a história que encontramos um fio solto no novelo, o fio da meada! Daí é só puxa- lo!
A esposa do falecido entra, olhos vermelhos, lenço na mão e um belo corpo! O rosto está inchado pelas lágrimas e ela já não é nenhuma mocinha, mesmo assim é possivel perceber tratar- se de uma mulher bonita e bem cuidada.
Não emito nenhuma saudação infame do tipo: __Tudo bem?__ Apesar de ter que admitir que cometí muitas dessas gafes no inicio de minha carreira.
Apenas aponto com o braço para que ela se sente na cadeira a minha frente.
__ Pode me dizer seu nome e o nome de seu esposo?
__ Sandra Deodato, e José Henrique Deodato.
__ As idades Dona Sandra?
__ A minha é 36 e a de meu marido é... era 42!
A escrivã interrompe pedindo licença para sair da sala, eu concedo e continuo minhas perguntas:
__ Qual era a profissão dele?
__ Tinha uma empresa de embalagem plásticas.
__ Era empresário então!
__ Isso! Um microempresário!
E minha enquete segue, em meio ao som da impressora matricial trabalhando initerruptamente na recepção, Sandra responde muito claramente:
__ Estavamos morando aquí na região a cerca de três meses, nos mudamos da zona sul após um sequestro que sofrí... Não, os sequestradores não foram pegos... Meu marido pagou o resgate e só notificou a polícia após minha libertação... Sim, eram os mesmos homens! Nunca vou esquecer aqueles rostos!
Faço uma pausa nas perguntas para que a mulher chore um pouco. Empurro na direção dela a caixa de lenços de papel sobre minha mesa e espero.
__Me desculpe!
Diz a mulher após três minutos.
Digo para ela não se preocupar, para ficar a vontade, que sei que é difícil e blá blá blá... Se um dia deixar de ser delegado vou virar psicólogo!
Minha escrivã retorna com alguns papéis na mão.
Volto então ao depoimento:
__Mas me diga, Dona Sandra! Como foi que tudo aconteceu?
__ Estava em casa com meu nenem, deveria ter ido para a academia de ginástica onde malho mas ela não abriria hoje, aproveitei então para dar folga para nossa empregada.
"Meu marido chegou no horário de sempre, mas rendido por dois homens. Um deles me trancou no banheiro com meu filho e não pude ver mais nada, apenas ouví enquanto batiam no meu marido para que dissesse onde tinha dinheiro na casa. Ele apenas gritava, dez, vinte, trinta minutos... Até que não gritou mais!
Desesperada, liguei para a polícia! Mas era tarde!
Nova pausa, mesmo motivo!
Pelo jeito vou precisar comprar outra caixa de lenços!
A escrivã me dá os papéis que trouxe. É o B.O de sequestro do casal, como disse, a senhorita Cinthia é muito eficiente! Numa folheada confirmo que a história bate.
Mando a mulher para a sala ao lado fazer um novo retrato falado dos sequestradores, mas antes faço a última pergunta:
__ E havia mesmo dinheiro na casa?
A mulher me olha com olhos carregados e responde:
__ Não! Nem um centavo em casa ou no banco! Estamos numa situação muito difícil desde o sequestro.
Peço para a escrivã acompanhar Sandra até o desenhista técnico e trazer na volta o Senhor João Carlos Deodato, irmão e sócio da vítima.
__ Com licença doutor?
__ Sente- se sr. João!
Explico sobre a co- relação do assassinato com o sequestro de três meses antes e começo meu inquérito:
__ Faz idéia de por que seu irmão não acionou a polícia na época do sequestro?
__ Medo! Cansei de dizer a ele para que chama- se a polícia, mas Sandra estava grávida, para ganhar nenem, e ele quis resolver tudo o mais rápido possivel!
__ Seu irmão pagou cinquenta mil reais de resgate, sabe quanto eram seus fundos na época?
__ Ele tinha exatamente essa quantia! Cinquenta mil!
__ Interessante! E sabe quem tinha acesso aos rendimentos dele na empresa?
João Carlos precisa de um tempo para pensar.
__ Eu e os funcionários da contabilidade. Acho que só!
__ Quantos funcionários?
__ São três...
Ele me passa o nome de cada um deles e permito que se retire.
Mal a porta se fecha e alguém a abre perguntando se tenho um minuto.
__ Agora não posso, estou ocup... Ora! Mas é você seu safado! Quanto tempo! Vamos, entre!
É Alvaro, um velho amigo meu que trabalha na perícia. Havia sido escalado para o latrocínio de José Deodato e aproveitou para me visitar.
Senhorita Cinthia nos tráz café para ajudar a botar a conversa em dia:
__ E a esposa? Como estão os filhos? Precisamos marcar um churrasco! O governo tá cada dia pior! Antigamente não era assim! Tem visto o Palhares? Santista ainda!? Não cansou de sofrer? Ahahahahahhh!!!
Alvaro me mostra então as fotos tiradas por ele na cena do crime. A cabeça careca parecia uma melancia de tão inchada.
Seria duro saber se o pobre diabo havia morrido espancodo ou sufocado pois, além das mãos e dos pés, também o rosto da vítima tinha sido envolvido por fita adesiva larga, Interessante!
Vendo que estou ocupado Alvaro se despede. Acompanho meu amigo até a porta da sala, de onde chamo novamente o Cabo Cetanelle, dessa vez o trocadilho nem passa por minha cabeça!
__ Diga- me Cabo, qual foi seu procedimento e o de seu parceiro ao chegarem no local?
__ Acionei o resgate para a vítima mesmo não encontrando pulsação e arrombei a porta do banheiro de onde a esposa pedia socorro! Meu parceiro fazia varredura pela residência a procura dos criminosos!
__ Obrigado cabo, é só isso!
Peço para a escrivã trazer novamente o irmão da vítima até minha sala. Converso com ele e em seguida chamo Dona Sandra. Ela vem, já com os retratos prontos, senta- se a minha frente e eu lhe pergunto:
__ Esquecí de lhe fazer a pergunta mais importante! A quanto tempo malha na mesma academia?
A mulher fica pálida e repito a pergunta.
__ Dois anos.
Responde enfim. Eu continuo:
__ Eu ouví sua história e percebí que tem muitas pontas soltas, como quando você disse que os assaltantes perguntavam ao seu marido onde havia dinheiro. Eu nunca ví amordaçarem ninguém pra depois interrogar! Também achei estranho você não ter ligado imediatamente para a polícia após ser trancada no banheiro, segundo suas palavras você esperou cerca de meia hora...
Continuo pressionando Sandra, que nega tudo. Comparo os retratos falados de três meses atrás com os feitos há pouco, não chegam nem perto de serem parecidos:
__ Diz a verdade Sandra, nunca houve sequestro, foi estelionato, você e seu comparsa fingiram o sequestro e agora que o dinheiro acabou planejaram ficar com o dinheiro do seguro de vida do seu marido.
Foi para saber isso que havia chamado novamente João Carlos, cheguei a pensar que ele estaria envolvido, mas me pareceu mais provável alguém da academia, que aliás não abriu no dia!
Demora um pouco, mas Sandra acaba confessando, entregando o amante, um instrutor da academia, e desabando em lágrimas.
Ela estica o braço para pegar um lenço de papel mas eu puxo a caixa, ainda há alguns e outras ocorrências para ouvir, posso precisar com outra pessoa!
Mando um dos investigadores recolhe- la a uma cela. Saio um pouco de dentro da minha sala para tomar um ar, me sinto incrível, ao invés de um crime resolví logo dois.
Na recepção outras pessoas com outras histórias reclamam da demora, acham um absurdo demorar tanto para fazer um boletim.
Ainda bem que não são eles os delegados!
O policial em pé a minha frente vai vomitando toda sua ocorrência para mim (Deus! Como odeio esses jargões da PM!) enquanto minha experiente escrivã, senhorita Cinthia, uma solteirona de 50 anos, vai digitando a história.
__ Estavamos em "Patru com vistas" quando "pagou" via "rede- rádio" um "QRU" de latrocínio. Fomos com uma "certa" até o "QTH" e encontramos o dono da residência "zerado" no quarto, aparentemente a pauladas, e sua esposa trancada com o filho no banheiro. Fizemos uma busca no local, mas os "malas" já tinham se evadido!
Eu fico lá... Balançando a cabeça enquanto minha atenção está focada na placa de identificação no peito do Cabo da PM a minha frente. Seu sobrenome é Cetanelle, deve ser de descendência italiana. Mas não foi isso que chamou minha atenção, foi a placa em sí que diz: CABO CETANELLE __ CÁ BOCETA NELLE!
Começo a dar risada e nem o cabo nem a escrivã entendem nada.
__Tudo bem doutor?
Digo que sim e me recomponho. Dispenso o cabo, prefiro pegar os detalhes com a família, então peço para que o policial chame a mulher da vítima... "com uma certa!" Digo irônico ao PM, mas quem entende é a senhorita Cinthia, que desvia a vista para o lado escondendo o sorrindo.
A maioria das pessoas acha que o trabalho de delegado é repleto de aventuras e mistérios como nos filmes. Tolice! Na verdade é um trabalho burocrático, passo a maior parte do tempo sentado nessa mesa, ouvindo pessoas e assinando papéis.
É no depoimento, na história ou nas lacunas dela que pode estar a solução para os casos:
Um apelido dito sem querer por um dos bandidos!
Uma cicatriz ou tatuagem percebidas pelas vítimas!
Alguma informação que os bandidos tinham e que não deveriam ter!
É afinando a história que encontramos um fio solto no novelo, o fio da meada! Daí é só puxa- lo!
A esposa do falecido entra, olhos vermelhos, lenço na mão e um belo corpo! O rosto está inchado pelas lágrimas e ela já não é nenhuma mocinha, mesmo assim é possivel perceber tratar- se de uma mulher bonita e bem cuidada.
Não emito nenhuma saudação infame do tipo: __Tudo bem?__ Apesar de ter que admitir que cometí muitas dessas gafes no inicio de minha carreira.
Apenas aponto com o braço para que ela se sente na cadeira a minha frente.
__ Pode me dizer seu nome e o nome de seu esposo?
__ Sandra Deodato, e José Henrique Deodato.
__ As idades Dona Sandra?
__ A minha é 36 e a de meu marido é... era 42!
A escrivã interrompe pedindo licença para sair da sala, eu concedo e continuo minhas perguntas:
__ Qual era a profissão dele?
__ Tinha uma empresa de embalagem plásticas.
__ Era empresário então!
__ Isso! Um microempresário!
E minha enquete segue, em meio ao som da impressora matricial trabalhando initerruptamente na recepção, Sandra responde muito claramente:
__ Estavamos morando aquí na região a cerca de três meses, nos mudamos da zona sul após um sequestro que sofrí... Não, os sequestradores não foram pegos... Meu marido pagou o resgate e só notificou a polícia após minha libertação... Sim, eram os mesmos homens! Nunca vou esquecer aqueles rostos!
Faço uma pausa nas perguntas para que a mulher chore um pouco. Empurro na direção dela a caixa de lenços de papel sobre minha mesa e espero.
__Me desculpe!
Diz a mulher após três minutos.
Digo para ela não se preocupar, para ficar a vontade, que sei que é difícil e blá blá blá... Se um dia deixar de ser delegado vou virar psicólogo!
Minha escrivã retorna com alguns papéis na mão.
Volto então ao depoimento:
__Mas me diga, Dona Sandra! Como foi que tudo aconteceu?
__ Estava em casa com meu nenem, deveria ter ido para a academia de ginástica onde malho mas ela não abriria hoje, aproveitei então para dar folga para nossa empregada.
"Meu marido chegou no horário de sempre, mas rendido por dois homens. Um deles me trancou no banheiro com meu filho e não pude ver mais nada, apenas ouví enquanto batiam no meu marido para que dissesse onde tinha dinheiro na casa. Ele apenas gritava, dez, vinte, trinta minutos... Até que não gritou mais!
Desesperada, liguei para a polícia! Mas era tarde!
Nova pausa, mesmo motivo!
Pelo jeito vou precisar comprar outra caixa de lenços!
A escrivã me dá os papéis que trouxe. É o B.O de sequestro do casal, como disse, a senhorita Cinthia é muito eficiente! Numa folheada confirmo que a história bate.
Mando a mulher para a sala ao lado fazer um novo retrato falado dos sequestradores, mas antes faço a última pergunta:
__ E havia mesmo dinheiro na casa?
A mulher me olha com olhos carregados e responde:
__ Não! Nem um centavo em casa ou no banco! Estamos numa situação muito difícil desde o sequestro.
Peço para a escrivã acompanhar Sandra até o desenhista técnico e trazer na volta o Senhor João Carlos Deodato, irmão e sócio da vítima.
__ Com licença doutor?
__ Sente- se sr. João!
Explico sobre a co- relação do assassinato com o sequestro de três meses antes e começo meu inquérito:
__ Faz idéia de por que seu irmão não acionou a polícia na época do sequestro?
__ Medo! Cansei de dizer a ele para que chama- se a polícia, mas Sandra estava grávida, para ganhar nenem, e ele quis resolver tudo o mais rápido possivel!
__ Seu irmão pagou cinquenta mil reais de resgate, sabe quanto eram seus fundos na época?
__ Ele tinha exatamente essa quantia! Cinquenta mil!
__ Interessante! E sabe quem tinha acesso aos rendimentos dele na empresa?
João Carlos precisa de um tempo para pensar.
__ Eu e os funcionários da contabilidade. Acho que só!
__ Quantos funcionários?
__ São três...
Ele me passa o nome de cada um deles e permito que se retire.
Mal a porta se fecha e alguém a abre perguntando se tenho um minuto.
__ Agora não posso, estou ocup... Ora! Mas é você seu safado! Quanto tempo! Vamos, entre!
É Alvaro, um velho amigo meu que trabalha na perícia. Havia sido escalado para o latrocínio de José Deodato e aproveitou para me visitar.
Senhorita Cinthia nos tráz café para ajudar a botar a conversa em dia:
__ E a esposa? Como estão os filhos? Precisamos marcar um churrasco! O governo tá cada dia pior! Antigamente não era assim! Tem visto o Palhares? Santista ainda!? Não cansou de sofrer? Ahahahahahhh!!!
Alvaro me mostra então as fotos tiradas por ele na cena do crime. A cabeça careca parecia uma melancia de tão inchada.
Seria duro saber se o pobre diabo havia morrido espancodo ou sufocado pois, além das mãos e dos pés, também o rosto da vítima tinha sido envolvido por fita adesiva larga, Interessante!
Vendo que estou ocupado Alvaro se despede. Acompanho meu amigo até a porta da sala, de onde chamo novamente o Cabo Cetanelle, dessa vez o trocadilho nem passa por minha cabeça!
__ Diga- me Cabo, qual foi seu procedimento e o de seu parceiro ao chegarem no local?
__ Acionei o resgate para a vítima mesmo não encontrando pulsação e arrombei a porta do banheiro de onde a esposa pedia socorro! Meu parceiro fazia varredura pela residência a procura dos criminosos!
__ Obrigado cabo, é só isso!
Peço para a escrivã trazer novamente o irmão da vítima até minha sala. Converso com ele e em seguida chamo Dona Sandra. Ela vem, já com os retratos prontos, senta- se a minha frente e eu lhe pergunto:
__ Esquecí de lhe fazer a pergunta mais importante! A quanto tempo malha na mesma academia?
A mulher fica pálida e repito a pergunta.
__ Dois anos.
Responde enfim. Eu continuo:
__ Eu ouví sua história e percebí que tem muitas pontas soltas, como quando você disse que os assaltantes perguntavam ao seu marido onde havia dinheiro. Eu nunca ví amordaçarem ninguém pra depois interrogar! Também achei estranho você não ter ligado imediatamente para a polícia após ser trancada no banheiro, segundo suas palavras você esperou cerca de meia hora...
Continuo pressionando Sandra, que nega tudo. Comparo os retratos falados de três meses atrás com os feitos há pouco, não chegam nem perto de serem parecidos:
__ Diz a verdade Sandra, nunca houve sequestro, foi estelionato, você e seu comparsa fingiram o sequestro e agora que o dinheiro acabou planejaram ficar com o dinheiro do seguro de vida do seu marido.
Foi para saber isso que havia chamado novamente João Carlos, cheguei a pensar que ele estaria envolvido, mas me pareceu mais provável alguém da academia, que aliás não abriu no dia!
Demora um pouco, mas Sandra acaba confessando, entregando o amante, um instrutor da academia, e desabando em lágrimas.
Ela estica o braço para pegar um lenço de papel mas eu puxo a caixa, ainda há alguns e outras ocorrências para ouvir, posso precisar com outra pessoa!
Mando um dos investigadores recolhe- la a uma cela. Saio um pouco de dentro da minha sala para tomar um ar, me sinto incrível, ao invés de um crime resolví logo dois.
Na recepção outras pessoas com outras histórias reclamam da demora, acham um absurdo demorar tanto para fazer um boletim.
Ainda bem que não são eles os delegados!
domingo, 27 de setembro de 2009
Uma História pelo Caminho
Geralmente escrevo sobre as histórias que vivo, sendo cinegrafista de jornalismo na madrugada isso não é difícil! Mas a história que conto agora foi ouvida por mim da boca do repórter com quem trabalho, um jornalista diferente de todos com quem já trabalhei, talvez por que venha da periferia e não de classe média como a maioria.
Viveu na pele injustiças e indiferenças e hoje orgulha- se de denuncia- las com seu trabalho. Doa a quem doer!
__Não sou assessor de imprensa de ninguém!
É seu lema!
E pelas histórias de sua vida é fácil entender como seu caráter foi formado.
Essa é apenas uma delas!
Era madrugada, já não me lembro exatamente o horário, saimos da base em direção a cidade de Francisco Morato nos arredores da capital paulista, contra minha vontade pois a matéria era sobre uma denúncia de omissão de atendimento por parte de alguns orgãos públicos. Para isso não precisavamos ir tão longe, qualquer serviço público alí no centro mesmo renderia a mesma matéria.
O melhor caminho para essa cidade é via Bandeirantes, mas como trabalhamos numa equipe reduzida (somos apenas eu, que sou cinegrafista e motorista, e o repórter, que acaba tendo que acumular a função de produtor) nossas verbas também são!
Cansados de pagar pedágio e não recebermos o reembolso, optamos por um caminho mais longo, porém sem tarifas, pela estrada Presidente Tancredo de Almeida Neves, ao fim da Raimundo Pereira de Magalhães em Perus.
Como toda estrada antiga, essa também era cheia de curvas sinuosas, buracos e escuridão, transformando uma viagem de vinte minutos numa de cento e vinte!
Mantivemos silêncio no carro por toda RPM e na Tancredo Neves de Perus até Caieiras. Eu estava de mau-humor e meu parceiro sabia respeitar isso. Mas ao chegar no entroncamento de Franco da Rocha o repórter viu aquelas bem conhecidas letras brancas de concreto com o nome da cidade e deu um pulo.
__Putz! Conheço esse caminho!
Eu não disse nada, apenas olhei para ele, que continuou.
__Quando era criança meus pais me trouxeram aqui!
Notando que viria uma de suas histórias de infância e tendo ainda um longo percurso pela frente, ajeitei- me no banco e continuei ouvindo.
__Eu tinha um tio, irmão de meu Pai, que teve de ser internado num manicômio aqui em Franco da Rocha.
"Não sei bem o que houve com ele, se foi bebida, drogas ou se simplesmente surtou, sabe como é, pra crianças os pais nunca contam muita coisa! O fato é que naquela época estresse, bipolaridade, depressão... Não existiam! Pelo menos não para nós que eramos muito pobres! Tudo tinha o mesmo nome: Loucura!
Tudo era mais difícil naquele tempo, por isso meus pais ficaram muito felizes quando conseguiram uma vaga para meu tio no hospital mental daqui, que era considerado o melhor do país, pelo menos ele teria o tratamento necessário!
Em um sábado ensolarado, uma ou duas semanas depois de seu irmão ter sido internado, meu pai resolveu trazer toda a família para visita- lo. Minha mãe, como boa dona de casa, preparou vários potes com guloseimas para nossa família e para meu tio. Eu via aquela 'viagem' como um verdadeiro pic-nic no campo, sensação que me era aumentada exatamente por esse caminho que fazemos agora, todo arborizado em seu redor!
Chegamos ao hospital de mala e cuia e fomos levados até o leito de meu tio.
Alí acabou nosso pic- nic!
Mal nos reconhecendo (e nós a ele que parecia um animal selvagem!) pulou sobre meu meu pai, que tentava conte- lo, rasgando sua camisa. Minha mãe se aproximou para ajudar seu marido e no meio da confusão os potes com comida acabaram indo ao chão, espalhando seu conteúdo por todo o quarto!
Meu tio desvencilhou- se de meu pai e acoado num canto do dormitório começou a enfiar toda aquela comida caída na boca: __ Está completamente louco! __ Disse meu pai saindo conosco daquele quarto dos horrores.
Na volta para casa nós três estavamos chocados, pude ouvir meu pai sussurrando com minha mãe: __ Está pior do que nunca! Não dá para vir aqui desse jeito!
E realmente não voltamos mais."
O repórter ficou em silêncio, mas eu sabia que sua história não havia terminado, então esperei, já estavamos na entrada da cidade e, vendo que precisava concluir logo sua história, ele continuou. Agora mais suscinto!
__Três meses depois meu tio faleceu! O laudo médico constatou que ele morreu de... FOME!
"Isso ficou na minha cabeça por anos! Será que ele estava tão louco quanto pensamos? Ou estava apenas faminto?
O fato é que o melhor hospital psiquiátrico do país deixou um de seus pacientes morrer de fome!"
Estacionei em frente ao posto médico de Francisco Morato, tinhamos chegado ao nosso destino, à nossa matéria. Não descí do carro, não antes de saber o fim da história.
__E o que aconteceu com o hospital?
Perguntei!
__Nada! Continuou sendo o melhor do país! Como disse, naquele tempo tudo era mais difícil e nós, muito pobres!
"Por isso tinhamos que vir aqui hoje, porque essas pessoas..."
E apontou para a frente do posto de saúde abarrotada de gente.
__Essas pessoas não tem ninguém para dar- lhes voz!
E desceu do carro com o microfone em punho.
Sem que visse, sorrí de admiração, peguei a câmera e, apontando para ele, disse:
__Gravando!
Viveu na pele injustiças e indiferenças e hoje orgulha- se de denuncia- las com seu trabalho. Doa a quem doer!
__Não sou assessor de imprensa de ninguém!
É seu lema!
E pelas histórias de sua vida é fácil entender como seu caráter foi formado.
Essa é apenas uma delas!
Era madrugada, já não me lembro exatamente o horário, saimos da base em direção a cidade de Francisco Morato nos arredores da capital paulista, contra minha vontade pois a matéria era sobre uma denúncia de omissão de atendimento por parte de alguns orgãos públicos. Para isso não precisavamos ir tão longe, qualquer serviço público alí no centro mesmo renderia a mesma matéria.
O melhor caminho para essa cidade é via Bandeirantes, mas como trabalhamos numa equipe reduzida (somos apenas eu, que sou cinegrafista e motorista, e o repórter, que acaba tendo que acumular a função de produtor) nossas verbas também são!
Cansados de pagar pedágio e não recebermos o reembolso, optamos por um caminho mais longo, porém sem tarifas, pela estrada Presidente Tancredo de Almeida Neves, ao fim da Raimundo Pereira de Magalhães em Perus.
Como toda estrada antiga, essa também era cheia de curvas sinuosas, buracos e escuridão, transformando uma viagem de vinte minutos numa de cento e vinte!
Mantivemos silêncio no carro por toda RPM e na Tancredo Neves de Perus até Caieiras. Eu estava de mau-humor e meu parceiro sabia respeitar isso. Mas ao chegar no entroncamento de Franco da Rocha o repórter viu aquelas bem conhecidas letras brancas de concreto com o nome da cidade e deu um pulo.
__Putz! Conheço esse caminho!
Eu não disse nada, apenas olhei para ele, que continuou.
__Quando era criança meus pais me trouxeram aqui!
Notando que viria uma de suas histórias de infância e tendo ainda um longo percurso pela frente, ajeitei- me no banco e continuei ouvindo.
__Eu tinha um tio, irmão de meu Pai, que teve de ser internado num manicômio aqui em Franco da Rocha.
"Não sei bem o que houve com ele, se foi bebida, drogas ou se simplesmente surtou, sabe como é, pra crianças os pais nunca contam muita coisa! O fato é que naquela época estresse, bipolaridade, depressão... Não existiam! Pelo menos não para nós que eramos muito pobres! Tudo tinha o mesmo nome: Loucura!
Tudo era mais difícil naquele tempo, por isso meus pais ficaram muito felizes quando conseguiram uma vaga para meu tio no hospital mental daqui, que era considerado o melhor do país, pelo menos ele teria o tratamento necessário!
Em um sábado ensolarado, uma ou duas semanas depois de seu irmão ter sido internado, meu pai resolveu trazer toda a família para visita- lo. Minha mãe, como boa dona de casa, preparou vários potes com guloseimas para nossa família e para meu tio. Eu via aquela 'viagem' como um verdadeiro pic-nic no campo, sensação que me era aumentada exatamente por esse caminho que fazemos agora, todo arborizado em seu redor!
Chegamos ao hospital de mala e cuia e fomos levados até o leito de meu tio.
Alí acabou nosso pic- nic!
Mal nos reconhecendo (e nós a ele que parecia um animal selvagem!) pulou sobre meu meu pai, que tentava conte- lo, rasgando sua camisa. Minha mãe se aproximou para ajudar seu marido e no meio da confusão os potes com comida acabaram indo ao chão, espalhando seu conteúdo por todo o quarto!
Meu tio desvencilhou- se de meu pai e acoado num canto do dormitório começou a enfiar toda aquela comida caída na boca: __ Está completamente louco! __ Disse meu pai saindo conosco daquele quarto dos horrores.
Na volta para casa nós três estavamos chocados, pude ouvir meu pai sussurrando com minha mãe: __ Está pior do que nunca! Não dá para vir aqui desse jeito!
E realmente não voltamos mais."
O repórter ficou em silêncio, mas eu sabia que sua história não havia terminado, então esperei, já estavamos na entrada da cidade e, vendo que precisava concluir logo sua história, ele continuou. Agora mais suscinto!
__Três meses depois meu tio faleceu! O laudo médico constatou que ele morreu de... FOME!
"Isso ficou na minha cabeça por anos! Será que ele estava tão louco quanto pensamos? Ou estava apenas faminto?
O fato é que o melhor hospital psiquiátrico do país deixou um de seus pacientes morrer de fome!"
Estacionei em frente ao posto médico de Francisco Morato, tinhamos chegado ao nosso destino, à nossa matéria. Não descí do carro, não antes de saber o fim da história.
__E o que aconteceu com o hospital?
Perguntei!
__Nada! Continuou sendo o melhor do país! Como disse, naquele tempo tudo era mais difícil e nós, muito pobres!
"Por isso tinhamos que vir aqui hoje, porque essas pessoas..."
E apontou para a frente do posto de saúde abarrotada de gente.
__Essas pessoas não tem ninguém para dar- lhes voz!
E desceu do carro com o microfone em punho.
Sem que visse, sorrí de admiração, peguei a câmera e, apontando para ele, disse:
__Gravando!
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Uma Frase p/ Hoje
Um jornalista que se importa mais com o furo dado do que com a informação transmitida não sabe diferenciar a fofoca da notícia.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O Legal e o Correto
Em frente ao distrito policial do Jabaquara um pai expressava ao telefone todo seu desespero e revolta ao saber que o homem que havia violentado sua filha de 11 anos seria liberado pelo delegado após a elaboração do boletim de ocorrência.
Era para a corregedoria da polícia civil que ele havia ligado, aconselhado pelos próprios investigadores da delegacia que discordavam dos procedimentos adotados pelo delegado que a apenas duas semanas sustentava o cargo. Um novato!
Burocraticamente estava tudo correto: Já havia passado mais de 48 horas do ocorrido, deixando assim de caracterizar flagrante delito. As duas partes seriam ouvidas e liberadas esperando o resultado dos exames médicos legais da menor para o prosseguimento do processo.
E foi isso que aquele pai ouviu da corregedoria, que os procedimentos estavam dentro da legalidade!
No papel soava muito bem mesmo, como 1 + 1 = 2, mas o direito faz parte das ciências humanas e não das exatas e cada história deve ser analizada individualmente, com base nas pessoas envolvidas nela, não por formulas prontas num papel.
Se já havia passado o tempo estipulado para caracterização de flagrante foi porque a menina de onze anos, além de ser arrastada para uma construção abandonada, amarrada, amordaçada e estuprada por três horas, também foi coagida com um revólver em seu rosto a manter silêncio ou ela e toda sua família morreriam.
Entendo a raiva do pai, que invadiu a delegacia para agredir o acusado e teve de ser contido pelos policiais.
Em seu lugar também tentaria fazer justiça com minhas próprias mãos já que o "longo" braço da lei não estava alcançando o bom senso!
Em certo momento esse pai fala com os corregedores sobre a presença da imprensa no local.
Em quinze minutos uma viatura é enviada ao distríto!
O discurso muda. Os policiais da corregedoria apertam o suspeito com um pouco mais de empenho e ele acaba confessando o crime, ficam "indignados" pelo delegado não ter pedido ainda a prisão temporária do criminoso (os investigadores são obrigados a esconder o sorriso).
Até mesmo aconselham o pai a abrir processo contra o delegado por prevaricação.
Tudo isso podia ter sido evitado.
Bastava o bom senso de diferenciar o que é legal do que é correto.
Era para a corregedoria da polícia civil que ele havia ligado, aconselhado pelos próprios investigadores da delegacia que discordavam dos procedimentos adotados pelo delegado que a apenas duas semanas sustentava o cargo. Um novato!
Burocraticamente estava tudo correto: Já havia passado mais de 48 horas do ocorrido, deixando assim de caracterizar flagrante delito. As duas partes seriam ouvidas e liberadas esperando o resultado dos exames médicos legais da menor para o prosseguimento do processo.
E foi isso que aquele pai ouviu da corregedoria, que os procedimentos estavam dentro da legalidade!
No papel soava muito bem mesmo, como 1 + 1 = 2, mas o direito faz parte das ciências humanas e não das exatas e cada história deve ser analizada individualmente, com base nas pessoas envolvidas nela, não por formulas prontas num papel.
Se já havia passado o tempo estipulado para caracterização de flagrante foi porque a menina de onze anos, além de ser arrastada para uma construção abandonada, amarrada, amordaçada e estuprada por três horas, também foi coagida com um revólver em seu rosto a manter silêncio ou ela e toda sua família morreriam.
Entendo a raiva do pai, que invadiu a delegacia para agredir o acusado e teve de ser contido pelos policiais.
Em seu lugar também tentaria fazer justiça com minhas próprias mãos já que o "longo" braço da lei não estava alcançando o bom senso!
Em certo momento esse pai fala com os corregedores sobre a presença da imprensa no local.
Em quinze minutos uma viatura é enviada ao distríto!
O discurso muda. Os policiais da corregedoria apertam o suspeito com um pouco mais de empenho e ele acaba confessando o crime, ficam "indignados" pelo delegado não ter pedido ainda a prisão temporária do criminoso (os investigadores são obrigados a esconder o sorriso).
Até mesmo aconselham o pai a abrir processo contra o delegado por prevaricação.
Tudo isso podia ter sido evitado.
Bastava o bom senso de diferenciar o que é legal do que é correto.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
A Foto do Pescador
Um sujeito e tanto aquele José Patrício, um desses tipos que poderia muito bem ter saido da tela de algum filme do cinema noir.
Um fotógrafo experiente, de humor sarcástico. Sabia falar a linguagem das ruas, se fazendo entender e respeitar tanto pela polícia, quanto pelos bandidos, ou "malas" como ele preferia dizer em gíria policial.
Tinha mais de vinte anos de janela, grande parte deles no jornalismo policial. Atualmente trabalhava no pomposo "O Estado de São Paulo", mas havia feito carreira no extinto "Notícias Populares".
O NP sempre foi considerado por muitos como um tablóide de sensacionalismo barato, pois que não falassem isso perto do Patrício! Ele tinha tanto orgulho de ter trabalhado nesse jornal que até os dias de hoje contava os "causos" daquela época, sacando do bolso recortes de jornal, já amarelados pelo tempo, com a matéria que acabara de contar.
Era a foto do pescador! Uma prova de veracidade da história contada!
Seu recorte preferido falava de uma chacina onde um dos "mortos" havia se levantado e se entregado a polícia numa verdadeira "volta dos mortos vivos".
Nos divertíamos ouvindo essa história, de como ele percebeu, enquanto tirava fotografias das vítimas caídas no chão, que uma delas ainda respirava!
__ Chefão! Esse aquí ainda está respirando!
Disse ele ao policial no local.
__ É impressão sua!
Foi a resposta que ouviu!
Ficou lá, encucado com aquilo, até que chegou ao local a polícia civil e, para espanto de todos, o "morto" se levantou correndo e se jogou dentro da viatura.
O homem havia se fingindo de morto pois os policiais militares lá presentes eram os responsáveis pela chacina, quando os civis chegaram foi sua chance de sair vivo dalí!
Essa era apenas uma entre várias histórias.
O fato é que, sensacionalista ou não, foi do NP que sairam alguns dos maiores nomes do fotojornalismo nacional, tanto que o Patrício foi o único fotógrafo até hoje que ví conseguir publicar uma foto de chacina com corpos expostos no Estadão (se não me engano foi até capa dessa edição), acabando com o mito de que esse jornal não publicava corpos de mortos.
__ Basta saber fazer velhinho!
Ele dizia rindo!
Não era o único, mas era um dos poucos que sabia o nome e o número de cada delegacia de São Paulo, e mais, tinha uma história para contar sobre cada uma delas!
__ 1° Dp, Sé, alí na rua da Glória. Dizem qua esse distrito é assombrado! Deve ser, mas por funcionários fantasmas que nunca passam nada pra gente!
"2° Dp, Bom Retiro... "
E sua lista ia até o 103° Dp em Itaquera sem gaguejar.
No 14° Dp, em Pinheiros fiz parte de um de seus "causos", talvez não tão dramático quanto o morto vivo, mas que me foi uma verdadeira lição de jornalismo.
Aconteceu na mesma época em que o conhecí. Eu já trabalhava com jornalismo há algum tempo, mas era um novato na madrugada e posso afirmar tratar- se de outro jornalismo nesse horário!
A madrugada talvez seja o último refúgio da reportagem policial, ao menos a legítima! Diferente do dia, nesse horário não existe matérias mastigadas. Aos repórteres são necessários muito jogo de cintura e perspicácia para se decifrar os casos, montando os fatos como num quebra cabeça.
A história no 14° distrito nos chegou da seguinte forma:
A PM teria abordado bandidos em um veículo, roubado de um tenente da polícia militar alguns minutos antes e, após troca de tiros, os marginais teriam morrido.
Nos dirigimos para a delegacia onde o sargento responsável pela ocorrência nos deu uma entrevista padrão:
__ Foi pago via rede rádio o furto do carro do Tenente Calavare estacionado em frente a residência do mesmo.
"Em patrulhamento pela região nossa equipe se deparou com os indivíduos no veículo roubado. Na tentativa de evadirem- se do local os criminosos efetuaram disparos contra a guarnição que, em resposta a injusta agressão, teve pronta resposta atingindo os meliantes."
"Socorridos ao hospital mais próximo, não resistiram aos ferimentos e infelizmente entraram em óbito."
O sargento sacou então de dentro de sua viatura uma pistola desmuniciada e um pente de balas que teriam sido usados pelos criminosos na troca de tiros, colocando ambos os objetos sobre o capô do carro para que fossem feitas as imagens necessárias.
Acostumado a esse tipo de situação o José Patrício logo pediu autorização para mexer na arma e no pente e coloca- los na melhor posição para fotografa- los.
__ Fique a vontade!
Responde o sargento.
Essa melhor posição consistia em enfiar o pente dentro do arco protetor do gatilho da pistola, utilizando- o como suporte para manter o armamento em pé sobre o capô do carro.
Isso pode parecer não fazer diferença alguma, mas quem entende de imagem sabe que descolando o objeto de interesse da superfície em que se encontra ganha- se profundidade de campo, valorizando a fotografia.
Tentou, tentou, tentou e nada, o pente não entrava naquele gatilho de forma alguma!
O Patrício olhou irritado para a pistola e o pente e pondo- os de volta sobre o capô, um ao lado do outro, disse:
__ Vai assim mesmo!
E enquanto fotografava a pistola e o pente, o resto das pessoas alí presentes (imprensa, policiais, curiosos) ria dele e de seu desconcerto pela inabilidade com o armamento.
Matéria terminada, fomos para o Bar Estadão comer seu famoso lanche de pernil, enquanto comia aproveitei para tirar o sarro do Patrício:
__ Aquela pistola te derrubou, hein!?
Muito serio, ele olhou para mim por cima dos óculos.
__ Velhinho! Sabia que todo pente encaixa dentro da pistola a que pertence! É padrão de fábrica! Quando não encaixa é porque não pertence a ela!
Eu fiquei mudo enquanto ele continuou:
__ Quando ví que não encaixava dei uma bela olhada. Primeiro na pistola, uma bela 380 cromada! Depois nas balas do pente, não eram de 380, mas sim de 9mm.
"Não houve troca de tiros, pelo menos não com aquela pistola, que os pm's devem ter montado de improviso."
"O que provavelmente aconteceu é que os 'malas' deram o azar de roubar o carro da um tenente e foram executados por isso!"
De repente aquela situação perdeu a graça, enquanto estavamos rindo do Patrício os policiais nos enganavam e riam, não dele, mas de nós!
No fim ele era o único que sabia a verdade, isso porque não se limitou na versão oficial e montou os fatos, como num quebra cabeça.
Como já disse antes, um sujeito e tanto aquele José Patrício!
Um fotógrafo experiente, de humor sarcástico. Sabia falar a linguagem das ruas, se fazendo entender e respeitar tanto pela polícia, quanto pelos bandidos, ou "malas" como ele preferia dizer em gíria policial.
Tinha mais de vinte anos de janela, grande parte deles no jornalismo policial. Atualmente trabalhava no pomposo "O Estado de São Paulo", mas havia feito carreira no extinto "Notícias Populares".
O NP sempre foi considerado por muitos como um tablóide de sensacionalismo barato, pois que não falassem isso perto do Patrício! Ele tinha tanto orgulho de ter trabalhado nesse jornal que até os dias de hoje contava os "causos" daquela época, sacando do bolso recortes de jornal, já amarelados pelo tempo, com a matéria que acabara de contar.
Era a foto do pescador! Uma prova de veracidade da história contada!
Seu recorte preferido falava de uma chacina onde um dos "mortos" havia se levantado e se entregado a polícia numa verdadeira "volta dos mortos vivos".
Nos divertíamos ouvindo essa história, de como ele percebeu, enquanto tirava fotografias das vítimas caídas no chão, que uma delas ainda respirava!
__ Chefão! Esse aquí ainda está respirando!
Disse ele ao policial no local.
__ É impressão sua!
Foi a resposta que ouviu!
Ficou lá, encucado com aquilo, até que chegou ao local a polícia civil e, para espanto de todos, o "morto" se levantou correndo e se jogou dentro da viatura.
O homem havia se fingindo de morto pois os policiais militares lá presentes eram os responsáveis pela chacina, quando os civis chegaram foi sua chance de sair vivo dalí!
Essa era apenas uma entre várias histórias.
O fato é que, sensacionalista ou não, foi do NP que sairam alguns dos maiores nomes do fotojornalismo nacional, tanto que o Patrício foi o único fotógrafo até hoje que ví conseguir publicar uma foto de chacina com corpos expostos no Estadão (se não me engano foi até capa dessa edição), acabando com o mito de que esse jornal não publicava corpos de mortos.
__ Basta saber fazer velhinho!
Ele dizia rindo!
Não era o único, mas era um dos poucos que sabia o nome e o número de cada delegacia de São Paulo, e mais, tinha uma história para contar sobre cada uma delas!
__ 1° Dp, Sé, alí na rua da Glória. Dizem qua esse distrito é assombrado! Deve ser, mas por funcionários fantasmas que nunca passam nada pra gente!
"2° Dp, Bom Retiro... "
E sua lista ia até o 103° Dp em Itaquera sem gaguejar.
No 14° Dp, em Pinheiros fiz parte de um de seus "causos", talvez não tão dramático quanto o morto vivo, mas que me foi uma verdadeira lição de jornalismo.
Aconteceu na mesma época em que o conhecí. Eu já trabalhava com jornalismo há algum tempo, mas era um novato na madrugada e posso afirmar tratar- se de outro jornalismo nesse horário!
A madrugada talvez seja o último refúgio da reportagem policial, ao menos a legítima! Diferente do dia, nesse horário não existe matérias mastigadas. Aos repórteres são necessários muito jogo de cintura e perspicácia para se decifrar os casos, montando os fatos como num quebra cabeça.
A história no 14° distrito nos chegou da seguinte forma:
A PM teria abordado bandidos em um veículo, roubado de um tenente da polícia militar alguns minutos antes e, após troca de tiros, os marginais teriam morrido.
Nos dirigimos para a delegacia onde o sargento responsável pela ocorrência nos deu uma entrevista padrão:
__ Foi pago via rede rádio o furto do carro do Tenente Calavare estacionado em frente a residência do mesmo.
"Em patrulhamento pela região nossa equipe se deparou com os indivíduos no veículo roubado. Na tentativa de evadirem- se do local os criminosos efetuaram disparos contra a guarnição que, em resposta a injusta agressão, teve pronta resposta atingindo os meliantes."
"Socorridos ao hospital mais próximo, não resistiram aos ferimentos e infelizmente entraram em óbito."
O sargento sacou então de dentro de sua viatura uma pistola desmuniciada e um pente de balas que teriam sido usados pelos criminosos na troca de tiros, colocando ambos os objetos sobre o capô do carro para que fossem feitas as imagens necessárias.
Acostumado a esse tipo de situação o José Patrício logo pediu autorização para mexer na arma e no pente e coloca- los na melhor posição para fotografa- los.
__ Fique a vontade!
Responde o sargento.
Essa melhor posição consistia em enfiar o pente dentro do arco protetor do gatilho da pistola, utilizando- o como suporte para manter o armamento em pé sobre o capô do carro.
Isso pode parecer não fazer diferença alguma, mas quem entende de imagem sabe que descolando o objeto de interesse da superfície em que se encontra ganha- se profundidade de campo, valorizando a fotografia.
Tentou, tentou, tentou e nada, o pente não entrava naquele gatilho de forma alguma!
O Patrício olhou irritado para a pistola e o pente e pondo- os de volta sobre o capô, um ao lado do outro, disse:
__ Vai assim mesmo!
E enquanto fotografava a pistola e o pente, o resto das pessoas alí presentes (imprensa, policiais, curiosos) ria dele e de seu desconcerto pela inabilidade com o armamento.
Matéria terminada, fomos para o Bar Estadão comer seu famoso lanche de pernil, enquanto comia aproveitei para tirar o sarro do Patrício:
__ Aquela pistola te derrubou, hein!?
Muito serio, ele olhou para mim por cima dos óculos.
__ Velhinho! Sabia que todo pente encaixa dentro da pistola a que pertence! É padrão de fábrica! Quando não encaixa é porque não pertence a ela!
Eu fiquei mudo enquanto ele continuou:
__ Quando ví que não encaixava dei uma bela olhada. Primeiro na pistola, uma bela 380 cromada! Depois nas balas do pente, não eram de 380, mas sim de 9mm.
"Não houve troca de tiros, pelo menos não com aquela pistola, que os pm's devem ter montado de improviso."
"O que provavelmente aconteceu é que os 'malas' deram o azar de roubar o carro da um tenente e foram executados por isso!"
De repente aquela situação perdeu a graça, enquanto estavamos rindo do Patrício os policiais nos enganavam e riam, não dele, mas de nós!
No fim ele era o único que sabia a verdade, isso porque não se limitou na versão oficial e montou os fatos, como num quebra cabeça.
Como já disse antes, um sujeito e tanto aquele José Patrício!
Assinar:
Postagens (Atom)