quinta-feira, 30 de julho de 2009

Cometa Verde

Aqueles que pensam em fazer carreira na reportagem televisiva, saibam que terão de aturar muitos absurdos de suas chefias.
No inicio deste ano passou pelo céu de São Paulo um certo cometa verde, uma matéria ótima, quando produzida!
Infelizmente a emissora onde trabalho esqueceu do tal cometa, lembrando dele quando já era tarde demais para agendar qualquer observatório ou instituto de pesquisa. Ou seja, quando o infeliz já cruzava o céu.
Há alguns dias vinha trabalhando sozinho pois o repórter passava por alguns problemas pessoais.
Fui chamado até a redação, onde a chefia me passou minha pauta:
__ Tudo bem querido? Preciso que você pegue a câmera e grave o cometa verde que está passando no céu!
Fiquei pasmo!

Faça um teste; Pegue sua câmera de vídeo, espere anoitecer, e veja quantas estrelas você conseguirá gravar.
Nenhuma! As estrelas não emitem luz suficiente para serem captadas pelas lentes das câmeras, e o cometa mal poderia ser visto a olho nú, como vemos as estrelas.

Não quis entrar neste mérito, minha chefia não entende nada da parte teórica da imagem, isso nem era o mais complicado, poderia ter dito a ela que o céu era imenso, que seria como achar uma agulha no palheiro! Mas, em vez disso, optei pelo mais óbvio. Da janela da redação olhei para o céu, depois para a chefia, para o céu, chefia, céu... E disse:
__ O tempo está nublado!
A camada de nuvens era tão grossa que nem mesmo o brilho da lua podia ser visto atravéz dela, quanto mais o cometa verde!
A chefia olhou para o céu carregado e, após alguns segundos, "solucionou" o problema:
__ Então pegue uma viatura e veja se encontra algum ponto onde o céu esteja limpo.
Olhei uma última vez para aquela muralha que parecia estar estendida por sobre todo o Estado.
Nessas horas certos ditados passam por nossa cabeça; "Em Roma, seja como os romanos." "Quem está na chuva é para se molhar." "Nunca diga nunca!" Enfim, olhei prestativo para a chefia, dizendo: __ Já estou indo! __ E passei o resto da madrugada no bar de um amigo jogando sinuca e conversa fora!
De tempos em tempos me ligavam:
__ Conseguiu achar algum ponto?
__ Ainda não! __ Respondia.__ Mas estou procurando!
E, rindo, dava outra tacada, mandando a bola verde para a boca do canto.

Ficam, portanto, três conselhos:
Primeiro,mesmo que não seja você a opera-los, conheça um pouco da parte técnica dos equipamentos para não falar nenhuma besteira e virar motivo de piada;
Segundo, quando lhe pedirem algum absurdo, não se estresse ou discuta com seus chefes, na maioria das vezes eles só estão desesperados, tentando resolver algum erro que cometeram;
Terceiro, ao voltar para a redação faça uma cara de frustração pior que a de seu chefe. Além de fazer com que ele se sinta melhor você ainda marcará alguns pontos com ele, que encerrará o assunto dizendo: "Tudo bem! Nós tentamos!"

terça-feira, 28 de julho de 2009

Plantão

O próprio nome já diz tudo!
É ficar plantado em algum local como um vegetal, faça chuva ou faça sol, até a chegada da rendição, que sempre atrasa!
Nesses meus anos de trabalho já peguei alguns memoráveis.
A invasão dos sem-teto ao terreno da VW, onde morreu o fotógrafo La Costa e o então Deputado Greenhalgh fez um discurso dizendo que a imprensa era inimiga do movimento (O detalhe é que nesse momento eu gravava bem no meio dos manifestantes). Resultado, me mostraram um revólver e tive de ser escoltado até o lado de fora do terreno invadido. Obrigado Greenhalgh!
A greve de alunos na USP. Alunos em greve, essa é boa! Até hoje não sei o que eles reinvidicavam, acho que nem eles! Uma passagem interessante desse plantão é que quase apanhei dos "grevistas" (Como podem ver, dou "sorte" em meus plantões!) Tudo porque um deles se sentiu ofendido por eu estar gravando no local enquanto ele fumava um baseado em frente a reitoria invadida.
Teve a queda do avião em Congonhas, que me renderam quatro dias sem dormir, meu record!
O Terrível caso Nardoni (Esse não gosto nem de comentar!), a morte do ACM, as crianças esquartejadas em Ribeirão Pires...
Mas geralmente os plantões não são tão longos quanto os citados.
Alguns dias atráz fiz um interessante, de apenas algumas horas, mas que chegou a ser cômico.
Uma mulher e seus filhos estariam sendo feitos reféns pelo marido e pai das crianças, sem que ainda tivesse feito qualquer exigência.
Lá estavamos nós, em frente a uma casa cercada por policiais, na garoa por horas, esperando. Após algum tempo a sequestrada e as crianças escapam pela janela do quarto. Quando a polícia se prepara para arrombar a porta, percebem que ela está destrancada e entram na residência... Suspense!
__A casa está vazia!
Anuncia o soldado.
Quaiz! Quaiz! Quaiz!
A história era essa:
A mulher chega tarde em casa e seu marido ciumento briga com ela, dando-lhe um tapa. Ela se tranca no quarto com os filhos. Nervoso, o marido bate na porta pedindo que seja aberta, as batidas cessam. A mulher liga para a irmã que chama a polícia. Mas o marido não está mais em casa, saiu para tomar umas cervejas e esfriar a cabeça. Ou seja, a mulher podia ter saído do quarto (onde ela mesmo se trancou) e recebido a polícia pela porta da frente!
Não havia matéria, só uma mulher envergonhada com o rumo que as coisas haviam tomado, alguns jornalistas molhados e um marido que tomaria um baita susto quando chegasse em casa!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Periferia, Polícia & Notícia

A favela de Heliópoles é a maior e uma das mais perigosas de São Paulo.
Não são raros tiroteios entre bandidos e policiais, portanto, também não é incomum que a imprensa apareça por lá fazendo suas entrevistas, fotografias e filmagens nos locais preservados pela polícia.
Mas e quando a polícia não permanece guardando a cena de crime? Como ocorreu no fim da noite passada!
Num lugar perigoso, como a favela em questão, isso quer dizer apenas uma coisa: A PM fez besteira!
Abandonam o local na esperança de que os jornalistas, com receio de assaltos, não entrem no interior da comunidade para levantar a história, ficando apenas com a versão oficial passada pelo comando de área.
Essa tática funciona com muitos colegas menos experientes no jornalismo policial mas, como diz o repórter com quem trabalho: "Não somos acessores de imprensa da secretaria de segurança!"
Mesmo sem polícia, nos aventuramos no interior da favela, passando por vielas escuras e apertadas e sentindo olhos em nossas costas.
Pode parecer loucura, mas não é!
Logo depois que ocorre um crime e a polícia se faz presente, existe um tempo hábil onde é possível circular pelo local, pois os criminosos continuarão escondidos até a poeira baixar. Esse tempo varia, pode durar dez minutos ou dois dias, tudo vai de sentir o "clima" do lugar.
Encontramos a rua onde teria ocorrido o confronto e descobrimos o motivo pelo qual a PM tentava evitar que entrassemos na favela. Uma menina de oito anos teria sido alvejada no peito por um policial!
O repórter conversa com os familiares da garota se declarando inconformado com o ocorrido e me olhando em busca de confirmação, que obtém na melhor expressão de indignação que consigo fazer. Técnica para ganhar a família, que acaba gravando entrevistas e garantindo nossa segurança no local.
Não é que não nos importemos, apenas somos calejados pela violência da metrópole. Além do que, precisamos manter certa distância para poder ver a coisa como um todo.
Segundo a família, policiais da ROCAM (rondas ostensivas com apoio de motos) eram os únicos a disparar com suas armas enquanto perseguiam um suspeito que fugia. Um desses tiros teria pego na criança, que voltava da casa de uma tia. Ao se recusarem a socorrer a menina, populares teriam ficado revoltados e agredido os policiais, tomando a chave de uma das motos durante a confusão.
A menina acabou sendo socorrida de carro por um vizinho até o hospital da região e não corre risco de morte.
Comprovando a versão da família, temos uma delegacia onde nenhum bandido foi preso ou arma apreendida.
Mas apesar de todos os fatos, nada acontecerá!
Os policiais serão absolvidos, os bandidos continuarão a solta e a imprensa partirá para outras matérias.
Apenas uma menina inocente de oito anos terá para sempre uma cicatriz em seu peito e, toda uma comunidade, uma ferida ainda maior contra o Estado!

Desinteligência

É o termo utilizado para brigas por motivos banais. Como a que ocorreu nesta madrugada após uma colisão entre dois veículos na avenida Funchal.
Uma das partes envolvidas, uma GCM, perseguiu e fechou o carro de um homem que teria batido em seu veículo, identificando-se como investigadora da Divecar ela puxou o revolver 38 para o condutor que, assustado, correu até uma viatura dos bombeiros que passava pelo local.
O bombeiro por sua vez acionou a PM, já que a GCM tentava se evadir do local.
Todos os envolvidos foram levados para a polícia civil do 15°Dp no Itaim Bibi.
Com a chegada da imprensa o GOE foi acionado pela delegada, para fazer o isolamento do distrito. Um verdadeiro circo onde faltou apenas a presença da polícia ambiental!
Olhando para os carros envolvidos no acidente não pude deixar de me sentir indignado. Nem mesmo estavam amassados, apenas um risco, desses que saem facilmente com um bom polimento, podia ser notado nas latarias.
Muito barulho por nada!
O que nos mostra o despreparo de certos guardas, sacando suas armas num mero acidente de transito.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Águia 1

27°Dp, Campo Belo, Zona Sul.
3 assaltantes são presos pela policia militar no bairro nobre Planalto Paulista. As guarnições em terra tiveram a ajuda do helecóptero águia, que os localizou numa tentativa de fuga sobre uma residência vizinha a que fora efetuado o assalto.
De inicio a família assaltada se recusou a gravar entrevista, mas mudaram de idéia com a alegação dos repórteres de que falar seria crucial para os registros policiais

O Shownalismo

Trabalho com jornalismo há 8 anos. O que vejo é que informar a população tem se tornado o menos importante com o passar do tempo! Cada vez mais estamos sendo reduzidos a fofocas e gincana. Fofocas nas matérias sensacionalistas, desprovidas de notícia mas carregadas de curiosidade mórbida, que nos exigem nas redações. E gincana pois o jornalismo tornou- se uma disputa entre os veículos de comunicação onde a palavra chave é o "Furo", de preferência no olho dos concorrentes!
Temos as posições no pódio:
Primeira;
Segunda;
Terceira.

E assim por diante, dessa forma recuso- me a citar a emissora em que trahalho, afinal, não é isso que importa, mas sim a informação!
Esse sentimento também foi o fator determinante para que, nos últimos 3 anos, eu tenha optado pelo trabalho na madrugada.
Durante o dia a Globo tem maia de 60 equipes na rua, a Record, mais de 50, SBT, 40, Band, 20 e RedeTV, 18.
Mas na madrugada todas essas emissoras tem apenas uma equipe, o que as põe em pé de igualdade e que, pela ausência de chefias e também pelos riscos do horário, faz com que troquemos informações e andemos juntos em comboios de uma matéria a outra.
Além das TV's contamos com o pessoal de jornais impressos e rádios.
Todos sobreviventes de um jornalismo em extinção, o jornalismo policial!